Home / edição 78 / Rose “The Queen” Volante

Rose “The Queen” Volante

Rose “The Queen” Volante  

Uma rainha em busca da coroa mundial

 

Há cerca de nove anos ninguém poderia imaginar que aquela mulher já adulta, simples e humilde pudesse surgir em um antigo clube-escola da Prefeitura de São Paulo com inacreditáveis 105 quilos, mas muito disposta a reduzir as medidas. Como que sonhando com viagem rumo à felicidade definitiva, Rose Volante já não queria pagar pelo excesso de bagagem que preenchia seu corpo de apenas 1,66m.

Ela experimentou o preconceito existente para as pessoas fora dos chamados padrões da normalidade e não recebeu a atenção que tanto precisava… e que o tempo tratou de mostrar que ela tanto merecia. Para dificultar ainda mais o quadro, ela era a única mulher no local.
Atrás do objetivo traçado, ela inicialmente tentava correr ao lado dos outros atletas homens para familiarizar-se e criar novas amizades.

Ainda sem receber nenhuma orientação específica, Rose Volante copiava o circuito de Boxe que o professor destinava somente aos companheiros. Deu resultado. Em apenas uma temporada, ela viu o peso ser reduzido em 40 quilos, melhorou a condição cardiovascular e apurou a técnica de combate mesmo em voo solo. A garota determinada mostrava que seu caminho estava somente nos primeiros passos.
Primeira vitória Naquele mesmo 2008 o sabor do triunfo ganhou importante ingrediente. Em competição não oficial envolvendo seu clube-escola contra o renomado Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), ela conseguiu convencer o então treinador a prepará-la de modo mais coeso.
Não havia espaço para regressão. Rose Volante impôs derrota à adversária logo no segundo round, em episódio definitivo para sua constante evolução. A boxeadora queria muito mais. O peso superelevado ficara no passado e, agora, era a atleta compenetrada e determinada que precisara prevalecer. Atrás de condições mais adequadas chegou a frequentar por breve período a Academia Combat Sport atraída pelo chamariz da revista de mesmo nome que estampava o lendário Peter Venâncio na capa de uma de suas edições.

Mas Volante ainda necessitada encontrar o solo ideal para equilibrar a distância da residência, no bairro de Pirituba, Zona Oeste da capital paulista, com os treinamentos cada vez mais exigentes e rigorosos, afora a busca por trabalho remunerado para manter seus sonhos intactos. Na conjunção de forças, já em 2009 ela se deparou com o técnico Antonio Pereira, 40, o Tony, com o qual selou relação de amizade, cumplicidade, respeito e afeto no aconchego da Academia Gracie Butantã (SP). Desde então nunca mais trabalharam separados.

Até mesmo o apelido “The Queen” surgiu dessa intimidade que mais beira à construção de uma família. Maria Fernanda Frassetto (conhecida como Maffe) treina no mesmo ginásio e sempre se mostrou encantada com a pequena Mychaelly, filha do técnico, ao lado da pugilista. Em determinado momento despertou a luz e a amiga decretou a sentença: a menina era a princesa do boxe e Rose, a rainha.A parceria com Tony Pereira rendeu e ainda rende frutos. Em terra pátria, Rose Volante foi tetracampeã paulista, foi tri nos Jogos Abertos do Interior, subiu ao lugar mais alto do pódio em três ocasiões no campeonatoBrasileiro, abocanhou o título sul-americano, pulverizou o Torneio das Estrelas. Foi essa última conquista que a fez receber o convite imediato para integrar a Seleção Brasileira e, uma vez mais, não decepcionou.Reserva de luxo Outros países puderam aplaudir suas performances: foi campeã da base de treinamento na Austrália, vice Pan-americana no Canadá e levou o ouro no Torneio Les Centures na França. Por ter alcançado a 7ª posição no ranking da Aiba – Associação Internacional de Boxe, Rose Volante ainda teve o privilégio de ser convocada para os Jogos Olímpicos de Londres (Grã-Bretanha/2012), porém, na condição de reserva na categoria 60k. Foi a primeira Olimpíada da história a introduzir o Boxe feminino, dividido somente em três divisões de peso e com apenas uma lutadora em cada uma delas: 51k, 60k e 75k.
Todos os obstáculos eram superados pela vontade pessoal, pelos treinos, pela paciência, pela habilidade, pela responsabilidade. Em algum momento, contudo, o mundo pareceu desmoronar. As insistentes dores no pescoço – que se imaginavam ser irritantes torcicolos – revelaram-se quadro mais preocupante: em realidade, a atleta estava com lesão na coluna cervical, entre asvértebras C3 e C4.
Examinada por alguns médicos o prognóstico foi dramático. Todas as indicações sugeriram que ela não poderia mais praticar esporte de contato – um golpe violento para quem pratica Boxe. Foi afastada da seleção nacional. Entretanto, enganaram-se os que pensaram que Rose Volante estava nocauteada. Os seis meses impossibilitados de treinar foram substituídos por muita fisioterapia, medicação, determinação e a necessidade premente de fortalecimento do músculo do trapézio para impedir novos ferimentos. Contra todas as posições, ela se recuperou integralmente e ainda pôde recolocar suas luvas e seu capacete no time verde amarelo.

Vida imita a Arte

A trajetória pessoal e esportiva de Rose Volante poderia servir de base para filme de cinema. Talvez boa parte de sua história já tenha sido escrita. O premiado “Menina de Ouro” (Million dollar, baby/EUA/2004) parece ter sido feito sob medida para ela, afinal, a personagem principal
Maggie Fitzgerald, encarnada pela atriz Hilary Swank, era atendente de lanchonete, sonhou e foi boxeadora e sofreu lesão cervical – semelhança ao extremo com Rose Volante. Nossa lutadora nacional confidencia que assistiu à película mais de 50 vezes e revela saber de cor a maioria dos diálogos. A admiração não acaba por aí.

Rose Volante tatuou de modo real no bíceps do braço esquerdo a expressão “Mo Cuishle” (algo como minha vida, meu sangue, minha alma) que surge inscrita no roupão utilizado pela lutadora na obra de ficção. Enquanto a personagem cinematográfica teve fim trágico, Volante alterava o rumo da história. Depois de 60 vitórias (sendo 14 por nocaute) e apenas sete derrotas, ela deixou o amadorismo e decidiu que era hora de arriscar e evoluir para conquistar um novo reino. Em maio de 2014, ela fez sua estreia nos ringues profissionais e não parou de acelerar.

 

 

 

 

 

 

 

Mais títulos
Partindo em linha reta, uma temporada depois ela já obtinha o cinto Internacional da Wiba (Associação Internacional de Boxe feminino). Em setembro de 2015, deu passo ainda mais largo ao abraçar o cinturão latino do CMB da categoria leve (61,2k) ao suplantar a argentina Maria Elena Maderna, uma ex-campeã mundial, por meio de nocaute emocionante no segundo round. A conquista, e posteriores defesas, ratificaram Rose Volante entre as melhores do mundo em sua divisão.

A falta de maior suporte financeiro ao esporte brasileiro obriga a atleta a intercalar seus treinos e lutas com atividade remunerada nas aulas de Boxe na Academia Santé e na Original Fitness, ambas no bairro em que reside. Rose Volante mostra que não há barreiras capazes de interromper seus limites. Claro que sua caminhada não foi efetuada sozinha, mas acompanhada por leais e dignos parceiros que não se preocupam em executar o papel de súditos.

O treinador Tony Pereira extrapola a figura do homem metódico no trabalho com as manoplas ou nas sessões de sparring para ser aquele paizão que conhece a filha somente pelo olhar e não se esquiva de também ser conselheiro nos momentos importantes. O carisma, a simpatia, a seriedade e a correção de valores apresentados por Rose Volante a faz ampliar ao seu redor incrível equipe multidisciplinar. (*)
Com um time tão poderoso, ela pode alimentar as esperanças de obtenção do desejado cetro mundial. Para uma rainha do esporte como Rose Volante, o trono real é ser a maior mandatária dentro dos ringues de 16 cordas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(*) Súditos da Rainha
Equipe técnica:
Antonio Pereira
Felipe Moledas
Douglas Ataíde
Centro de Lutas Ryan Gracie Butantã – Victor Faracini
Pre paração física:
Team Nogueira Perdizes
Fábio Moraes e Sidney Alcântara
Apoiadores e colaboradores :
Memorial Necrópole Ecumênica de Santos (Pepe Alstut)
Everlast Brasil
Expresso TransGomes (Genival Gomes)
Médico do esporte e endocrinologista João Ricardo M. Aguiar
Extreme Health – Fisioterapia Esportiva (Hugo Loewenthal)
Clínica Saúde & Arte Moema (Léo Baroni, psicólogo)
Forcefield protetores bucais
Fernando Boniotti
A Madre Produtora
Ali Bajet
Raio X da campeã
Nome: Rose Volante (Rosilaine Volante Silva)
Apelido: The Queen ou Queen Rose
Nascimento: 12/08/1982
Categoria: Leve (61,2k)
Posição: Destra
Altura: 1,66m
Envergadura: 1,71m
No amadorismo: 60 vitórias (14 KOs) – 7 derrotas
No profissionalismo: 12 vitórias (7 KOs) – Invicta

Veja também!

ESTEVÃO SILVA – O Strongbuilder mais Forte do Brasil

Na edição passada falamos sobre todo o universo e as vertentes que envolvem o treinamento …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *