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“Ratinho” de Oliveira – parte para salto final

O pugilista brasileiro Marcus Vinícius “Ratinho” de Oliveira procura avaliar com critério diversos pontos que movimentam o universo do Boxe para, enfim, alcançar a glória sonhada desde a adolescência. Residente nos Estados Unidos há seis temporadas, ele manteve contrato com renomados promotores e treinadores, chegou a posição privilegiada em ranking mundial, porém, sofreu com cirurgias nos olhos e com a realização de poucos combates nesse período. Aos 32 anos, o atleta nacional abre seu coração, confirma contatos para reerguimento de sua trajetória, fala da importância de sua mulher, revela forte personalidade e mostra que ainda vive focado para o triunfo.

 Combat Sport – Com 32 anos o que você

planeja e com o que ainda sonha para seu futuro no esporte?
Ratinho – Eu planejo vencer mais combates por nocaute porque por pontos está difícil. Tenho sido muito prejudicado nas decisões das minhas lutas. Isso acontece comigo desde meus tempos de amador. As únicas vitórias por pontos foram diante do Lourival Luiz da Silva (no início de carreira em 2006) e quando defendi meu título Latino-Americano da OMB (Organização Mundial de Boxe) contra o argentino Walter Crücce (em 2011). Eu o massacrei durante os 12 roundes e derrubei-o em quatro ocasiões diferentes… E também quero ganhar mais dinheiro, pois foi para isso que eu vim morar nos Estados Unidos.

 

Nos últimos seis anos, você só lutou seis vezes. A que se deve essa pouca atividade?
Quando eu assinei contrato com o Don King pensava que ele ainda tinha poder com as TVs americanas, mas não foi bem assim. Don King foi bom para mim e para minha mulher Juliana (Casellato). Sempre nos atendeu em seu escritório e de lá sempre saíamos com pelo menos US$ 10 mil em dinheiro vivo. Era assim que ele fazia conosco. Estive na casa dele em Cleveland, estado de Ohio, no aniversário de seus 80 anos. Ele sempre me tratou com muito respeito, dizia que eu era o boxeador  brasileiro favorito dele. Outro impeditivo foi que em quatro anos sofri cinco cirurgias nos olhos. O doutor Yossi Sidikaro – que foi o mesmo médico que operou o Sugar Ray Leonard nos anos 1980 – fez um ótimo trabalho para minha recuperação. Porém gastei mais de US$ 50 mil indo e vindo de seu consultório em Bervely Hills (Los Angeles, Califórnia).

Quem é seu atual manager? Tem contrato com algum promotor?
Acabo de fechar contrato com o Victor Ortiz, ex-campeão mundial ainda em atividade, que será meu promotor, intermediará acordos para lutar e ainda servirá de conselheiro. Para intensificar nosso trabalho, eu e minha mulher mudamos para a cidade de Calabasas, no Condado de Los Angeles, Califórnia. Inclusive managers da Alemanha mantiveram contato comigo algum tempo atrás, mas optei por continuar em solo americano porque quero finalizar aqui a última etapa da minha carreira profissional.Hoje você está trabalhando com qual treinador? 

Marcus de Oliveira e John David Jackson, ex-campeão mundial e
que foi treinador do brasileiro.


Pelo acordo com o Victor Ortiz foi me disponibilizado o seu mesmo preparador: o técnico Joseph Hoss Janik.

Você foi aos EUA sem falar inglês. Hoje sua comunicação é perfeita com o idioma?
Cheguei aqui nos Estados Unidos e não falava nada de inglês, mas quando fui encaminhado para o campo de treinamento pertencente ao Don King (em Ohio) aprendi o idioma escutando músicas e entrevistas do Tupac Shakur (morto em 1996) e conversando com os niggas (negros) que estavam por lá, como o pesado Larry Donald e o meu treinador Dione Walker. Nas ruas de LA troquei ideias com negros americanos, armênios, russos, managers e promotores. Basicamente aprendi o idioma nas ruas porque não gosto muito de escola e, na escola, nunca aprendi nada. Aprendi tudo na rua, até o Boxe.

Você teve contrato com promotores como Don King e Carlos Oliveira. Como foram esses relacionamentos, por quanto tempo e o porquê do rompimento?
Em 2012 lutei em um cassino em Miami e venci por nocaute (Adam Collins) em apenas 49 segundos do primeiro round. Vários managers e promotores tiveram interesse em mim, pois sabiam que eu havia tido problema com o Al Bonani (um capataz do Don King). Na época, Don King freou o desejo dos outros, pois falava em promover eliminatória entre eu (Marcus Oliveira do Brasil) contra o Marcus Oliveira (dos EUA). Era grande coincidência o promotor ter dois Marcus Oliveira no Top 10 mundial: eu era o #5 pela OMB e o outro Marcus Oliveira era #7 pela FIB – Federação Internacional de Boxe. Faríamos a luta eliminatória para decidir quem lutaria com o americano Tavoris Cloud, na oportunidade o campeão mundial FIB. Infelizmente isso não aconteceu porque o Don King já não tinha tanto espaço na TV como no passado. Aí tentaram me levar com urgência para uma luta contra o até então dono do cinturão pela OMB, o britânico Nathan Cleverly. Entretanto, três dias antes do combate, o promotor do inglês e o Oscar De La Hoya se acertaram e optaram por um lutador bem pior ranqueado e, na época, a mídia criticou muito essa decisão deles. Teria sido uma boa luta para mim, afora que eu receberia US$ 100 mil. No mesmo período um manager cubano entrou em contato comigo dizendo que tinha um promotor brasileiro, em Miami, que tinha muito interesse em mim mesmo sabendo que eu estava sob contrato com o Don King. Esse manager disse que eu receberia US$ 50 mil somente para assinar com o  pomotor e um mínimo de US$ 10 mil por combate. As despesascom advogado para romper o contrato anterior seriampagas por ele (Carlos Oliveira, pai do ex-boxeador MichaelOliveira). Não foi isso que aconteceu. Don King ligou parao Carlos Oliveira perguntando sobre mim e pedindo que me mandasse de volta, pois iria processá-lo por ter roubado umde seus lutadores. Oliveira preferiu evitar atrito deixando eu ea Juliana sem nada. Ficamos juntos com o Oliveira somente por uns três meses. Lembro que fomos ao escritório do respeitado  advogado epromotor de boxe Leon Margules para ver se havia alguma forma de nos mantermos com o Oliveira – que chegou a pagar caro por essa consulta de apenas meia hora, – mas nos foi sugerido para evitar a briga.

Está casado há quanto tempo com a jornalista Juliana Casellato? Qual o papel dela em sua vida profissional e pessoal?
Estou com a Juliana desde 2010 e nos casamos na Flórida em 2014. Ela tem um papel muito importante em tudo: ela é linda, amável e é muito forte no business do boxe. Foi ela quem conseguiu o advogado Roger Mousi (o mesmo do ator Charlie Sheen) quando tive que processar um antigo manager que não queria efetuar acerto por nosso rompimento contratual à época. Junto comigo, ela tem feito história. Foi ela a responsável pelo meu acordo com o Don King. Ele a adora! A Juliana Casellato é sinônimo de determinacão e
positividade. Ela é a melhor!

Como sobrevive nos EUA? De qual atividade advém seus ganhos financeiros?

Vivo do dinheiro de minhas lutas, dos negócios que fiz com managers e promotores. Contudo as cirurgias me custaram mais de US$ 100 mil e me deixaram um pouco quebrado financeiramente falando. Nos momentos difíceis aqui nos EUA recebi ajuda de parceiros, como o casal Cory Spinks (boxeador) e Christy Spinks, do Erislandy Lara (cubano campeão mundial) amigão desde os tempos que convivemos juntos na da Alemanha em 2008. Para se ter uma ideia, certa ocasião mandei mensagem para ele pedindo certo valor em dinheiro e ele me enviou quatro vezes mais! Tive ajuda ainda do Ola Afolabi, do ex-campeão dos pesados LamontBrewster, do ex-desafiante ao cinto dos pesados GeraldWashington, do meu cunhado e músico Mauro Casellato,da administradora do condomínio onde vivíamos, uma senhoraromena que veio para os EUA fugindo da guerra em seu país natal nos anos 1980. Também recebi US$ 15 mil de acerto com o meu ex-manager que nos ajudou, paguei umas dívidas e comprei outro carro para a Juliana.

Há quanto tempo está nos EUA? Em quais cidades residiu?
Estou no EUA há seis anos. Morei em vários lugares, como Deerfield Beach, Miami Beach, South Beach e Fort Lauderdale, todos na Flórida; em Orwell City, Ohio. Também passamos seis meses em Las Vegas (estado de Nevada) onde me associei ao americano Dominick Guinn, ex #1 peso pesado, um cara que sabe tudo sobre Boxe e as ruas

Quais são as vitórias e derrotas mais marcantes de sua carreira? Por que?
Todas as minhas vitórias foram importantes, a maioria por nocaute. Ganhei o título brasileiro supermédio (76,2k) ao bater por nocaute o então campeão Edson “Rapadura” Guedes, já falecido. Venci o ex-campeão argentino Martin Abel Bruer pelo cinturão latino da OMB, o qual defendi com sucesso em duas ocasiões. Sobre as derrotas uma ocorreu por nocaute (a única dessa forma que sofri em toda a minha carreira). As outras duas derrotas foram aqui nos EUA em duas armações contra mim fora de minha categoria de peso. Por isso que meu nome continua valendo algum dinheiro e eu ainda mantenho o meu respeito. (*) N.R: Até o momento, o pugilista ostenta registro de 24 vitórias (22 por nocaute), 3 derrotas e 1 empate.

Você enfrentou problemas judiciais nos EUA? Quais foram? Com quem? Quais foram as decisões?
Só tive um problema judicial e contra o bilionário Andy Zac; e o venci em tribunal de Bervely Hills. Eu tinha processo contra ele por danos à minha carreira e que iria custar a ele uns US$ 250 mil. O processo poderia durar mais de ano e, como eu já estava estressado e cansado daquilo tudo, meu advogado Roger Mousi fez um acordo rápido de US$ 15 mil e eu aceitei. Eu tinha contrato com o Don King até 2018. Depois de uma conversa com ele, ocorreu a minha liberação sem problemas;King me desejo sorte e ainda me deu uma pequena soma em dinheiro.

O que falta ao boxe brasileiro para atingir nível aceitável de reconhecimento como no passado até mesmo para produzir outros campeões mundiais?

O que falta no Brasil? Talentos e gente de personalidade igual a mim, pessoa que veio com a mentalidade de rua, sobrevivência, digna de respeito. Nunca tive patrocinador no Brasil. Também nunca me vendi. Ratinho é único!
Queria aproveitar e mandar um salve para todos os meus fãs, meus verdadeiros fãs que têm me apoiado durante todo esse tempo. São Paulo sempre esteve comigo. Eu represento vocês até o fim 

Morava em qual cidade nos EUA? Treinava em qual academia?
Antes de Calabasas, morava em North Hollywood (bairro de Los Angeles) havia três anos e quando eu fechei acordo com o meu ex- manager Andy Zac, eu treinava na academia mais agitada de LA, a Powerhouse Gym. Por lá só treinam top contenders, campeões norte-americanos, latinos e mesmo  campeões mundiais. Nessa academia, eu fazia sparring com ex-desafiante mundial Isaac Chilemba e Ola Afolabi, antigo dono do cinto mundial, afora diversos russos e ucranianos. Algumas vezes fui ao Wild Card (cujo proprietário é o treinador Hall da Fama Freddie Roach) para sessões de sparring

No Brasil você trabalhou com quais treinadores?
Meu melhor treinador no Brasil se chama André Ferreira, o Manito (morto há alguns anos). Uma pessoa que morou na Argentina por muito tempo e adquiriu a artimanha dos portenhos. Ele trabalhou comigo por dois anos e obtivemos sucesso. Ele me amava, gostava do meu estilo, gostava do meu jeito de ser. Ele é o treinador mais importante que eu já tive e eu continuo representando-o; farei isso até o final da minha carreira. RIP mestre André

Quais são suas referências no boxe e na vida pessoal?
No boxe, de início, foi o Juarez de Lima que foi o melhor contender do Brasil chegando a bater Miguel de Oliveira, em 1976. Na vida é o rapper americano Tupac Shakur. Eleé sinônimo de respeito e de talento.

 

Marcus e a esposa Juliana Casellatto em viagem de férias nas Bahamas, Caribe: “Minha esposa é
sinônimo de determinacão e positividade. Ela é a melhor!”.

 

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