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O FUTURO DO BOXE EM BOAS MÃOS

Breno Macedo, à esquerda, e Fernando Bolacha. Amor e dedicação pelo Boxe; transformando vidas e alcançando resultados.

Apesar da pouca idade, Fernando “Bolacha” Menoncello e Breno Macedo têm dado uma grande contribuição para o pugilismo brasileiro e já estão fazendo a diferença. Investindo no trabalho social e fomentando categorias de base, a dupla tem alcançado resultados importantes dentro e fora dos ringues.
A Combat Sport conferiu de perto esse trabalho e traz as nuances que podem levar o Boxe brasileiro a um novo patamar.

 

DAS RUAS PARA OS RINGUES
Quem já ouviu falar no nome de Fernando Menoncello, mais conhecido como Bolacha, sabe que a sua história no Boxe dispensa apresentações. Neto de um ex-pugilista, Fernando teve uma juventude conturbada, mas encontrou na modalidade um caminho para dar a volta por cima, tornando-se um boxeador competitivo. Entre as conquistas mais expressivas estão, por exemplo, o título do torneio Kid Jofre, além de ter vencido a seletiva para ser representante do Brasil no desafio internacional de barra fixa do Guinness World Records.
Paralelamente às lutas, começou ministrar treinos abertos aos domingos no Parque de Pinheiros para difundir a modalidade e ganhou bastante seguidores. Em 2016 assumiu um espaço na Freguesia do Ó, onde iniciou um trabalho social chamado “Das Ruas para os Ringues”, que está se tornando referência na formação de futuros campeões.

“Sempre quis ter um espaço para crianças e adolescentes. Para mim o esporte salva vidas. A princípio sempre foquei no social, mas costumo dizer que tenho um bom olhar e os jovens que têm potencial eu acabo levando para o Boxe competitivo. Com a Isabella Gomes (campeã brasileira e estadual) foi assim”, conta o boxeador, que já conseguiu expandir seu trabalho para mais um ponto no Centro Esportivo de Pirituba.
Mesmo com apenas 3 anos de atuação em seu projeto, Bolacha tem obtido bons resultados no campo competitivo, o que vem chamando a atenção de muitos fãs do pugilismo. “Trabalho com Boxe moderno, que busca tocar sem ser tocado. É um método que queria aperfeiçoar, buscar mais informações. No primeiro ano consegui fazer 3 campeões infantis, no segundo ano repeti a dose, e de lá em diante fiz campeões paulistas e nacionais”, explica Bolacha, cujo projeto tem apoio da Everlast, fornecedora de material esportivo, da Led Sports, que oferece uniformes e da Academia Nunes, que faz um trabalho de preparação física com os atletas de alta performance.

 

RIO CLARO: TERRA DA MMBOXE
Breno Macedo carrega com muito orgulho o legado do pai, Marcos Macedo (hoje aposentado como professor de Educação Física), que já trabalhava com Boxe e foi técnico no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, um grande polo do pugilismo paulista e nacional. Em 2003, a família montou um centro de treinamento em Rio Claro (SP) – hoje chamado Macedo e Macedos Boxe – e iniciou um trabalho com crianças e jovens, ainda com Breno e o irmão Leonardo Macedo, que desde janeiro deste ano é integrante do corpo técnico da FBB – Federação Brasileira de Boxe, crescendo e se desenvolvendo na modalidade.
Em 2007, a equipe deixou sua marca em alguns dos principais eventos das categorias de base. “Viemos de uma cidade relativamente pequena, que nunca teve Boxe e conseguimos chegar no terceiro lugar geral da Forja de Campeões, um campeonato tradicional muito prestigiado dentro da modalidade. Um resultado bem expressivo para uma equipe nova. Naquele ano, também fomos para o campeonato infantil e tivemos dois campeões estaduais”, lembra Breno.
Ainda que o talento e esporte de alto nível tenham ajudado a formar novos campeões com mais regularidade, Breno lembra que não é possível manter esse trabalho sem o caráter social. “Minha experiência no Boxe me ensinou que a maioria de atletas de destaque são jovens de periferia, que encontram na modalidade uma oportunidade e se tiverem um trabalho técnico bem feito, podem se tornar um atleta de ponta”, afirma Breno.

UNINDO FORÇAS PARA FAZER A DIFERENÇA

O principal diferencial dessa nova geração de pugilistas é o investimento nas categorias de base, um nicho ainda muito carente de recursos, mas que pode de fato fazer a diferença na busca por uma sociedade melhor.
“A gente sabe que o esporte de alto rendimento é excludente, é para quem tem aptidão. Portanto, não é porque a criança não tem potencial que você diz para ela não treinar mais; pelo contrário, você a coloca mais perto, passando valores, ensinando a ser um cidadão de bem, que respeita as pessoas”, diz Breno.
Para que esse trabalho siga bem sucedido, Fernando Bolacha afirma que existe também uma mudança na mentalidade dos profissionais que estão emergindo nesta nova fase do Boxe nacional.
“Antigamente o Boxe era bem mais restrito, cada treinador tinha sua equipe e cada um ficava com sua técnica. Hoje ele evolui constantemente por conta da troca de informações. Estamos visitando mais as academias, uns dos outros, trocando treinamentos, sempre se ajudando”, destaca Fernando Bolacha.

 

INTERCÂMBIO NA ITÁLIA
Dirigindo trabalhos similares e pensando no futuro dessa nova geração, no mês de outubro, Fernando Bolacha e Breno Macedo se uniram pela primeira vez para proporcionar um intercâmbio independente com a Itália, levando alguns atletas promissores de 17 a 24 anos. A ação interclubes, que não se trata de uma missão oficial, mas tem ciência e anuência da Confederação Brasileira e da Federação de Boxe do Estado de São Paulo, buscou a troca de experiências com um dos países que tem muita tradição no pugilismo mundial, além de treinamentos intensivos e alguns desafios.
“A proposta foi levar para o pessoal de lá um pouco da nossa realidade e conhecer o trabalho deles. O Boxe na Europa ainda é bastante difundido, os italianos têm medalhistas olímpicos e dezenas de campeões mundiais”, conta Breno, que também coloca como um dos principais objetivos da viagem oferecer uma experiência internacional para jovens talentos, que as vezes não têm oportunidades de competir fora do país. “Essa vivência já existe na seleção brasileira, mas a gente sabe que é algo mais difícil e restrito. Portanto, é um lado esportivo muito importante para quem já tem uma carreira ou caminha para isso e pode vir a se aposentar sem ter tido a chance de lutar fora do país, com adversários de alto nível”, ressalta.
Para desfrutar dessa vivência de quase um mês, os atletas precisaram custear do próprio bolso as passagens aéreas e valores a serem gastos durante a estadia na Europa. Hospedagem, alimentação, local para treinamentos e competição, suporte técnico e médicos foram cedidos de forma gratuita pelos clubes italianos.
“Temos trabalhado com autofinanciamento. Nós mesmos organizamos a viagem, entramos em contato com o pessoal da Europa, tivemos todo o cuidado para pesquisar a idoneidade e legitimidade dos clubes que iriam nos receber, para não ter problema de ser algo perigoso ou ilegal, como uma “rinha”. Assim, os clubes italianos ofereceram toda estrutura de treinamentos, parte logística e organização das lutas e nós cuidamos da parte burocrática, como conseguir autorização das entidades competentes, pois, apesar de não ser algo oficial, existe uma hierarquia e protocolos a serem seguidos, além de buscar patrocínio. Afinal, muitos desses atletas têm uma condição financeira limitada”, reforça Bolacha.
O saldo dessa jornada será publicado na próxima edição da Revista Combat Sport.

ESCOLA CUBANA
Ainda falando sobre a importância desse relacionamento amistoso com treinadores e atletas estrangeiros, Breno Macedo, que também é doutorando em História, lembra que o Boxe brasileiro tem uma influência muito grande do sistema cubano. “Vários treinadores de Cuba vieram entre 1995 e 1996 e a forma como eles difundiram conhecimento, implementaram um “novo” tipo de treinamento, fez muita diferença. Hoje você consegue perceber que os atletas que tiveram resultados expressivos internacionalmente vieram desse sistema, que também segue muito presente na seleção brasileira, apesar de não se ter muitos treinadores cubanos lá como antigamente”, conta. Após a prata e o bronze em Londres 2012, os irmãos Esquiva e Yamagushi Falcão estão trilhando um caminho bem-sucedido no Boxe profissional, que acabou atraindo também Robson Conceição, primeiro campeão olímpico do Boxe brasileiro, um resultado muito celebrado na Rio 2016. Rose Volante se tornou a primeira mulher a conquistar um título mundial de Boxe para o Brasil e defende uma marca incrível de 14 vitórias em 14 lutas, sendo 8 nocautes, aos 42 anos. Recentemente Luís Oliveira, o Bolinha, neto do ex-pugilista Servílio de Oliveira, igualou o feito do avô conquistando uma medalha olímpica de bronze. O jovem que também compete na categoria peso mosca celebrou o pódio nos Jogos Olímpicos da Juventude de Buenos Aires, que, por ironia do destino, veio justamente no aniversário de 50 anos da medalha do avô, a primeira do Brasil no Boxe olímpico, conquistada na Cidade do México em 1968. Nesse mesmo evento, Keno Marley, atleta da equipe Tony Boxe, ganhou o ouro.
“Estamos tendo essa representatividade com medalhas graças a esse trabalho moderno de troca. A aparição de treinadores novos é também uma consequência dessa nova maneira de pensar. A internet também torna mais acessível esse contato. A gente aprende a lidar com treinamentos mais modernos, não temos vergonha de perguntar e ir atrás de coisas novas, termos informações de outros países. Isso agrega muito para a modalidade”, conta Bolacha.

Equipe de Rio Claro (categoria de base), participando de um evento de lutas no Centro Olímpico, na capital paulista em 2018. Ao centro de camiseta vermelha, Marcos Macedo, idealizador do projeto.

OLIMPÍADA OU LAS VEGAS?
Com o surgimento de novos ídolos, após um hiato de conquistas com nomes como Maguila e Popó, é natural que muitos atletas demonstrem novamente interesse em seguir carreira no Boxe. Mas Breno Macedo lembra que existem outros componentes que fazem parte desse universo e que na verdade a modalidade nunca deixou de chamar a atenção. “O Boxe tem uma aura, uma história, uma mítica inexplicável. Atinge pessoas de todas as idades e de todas as partes do mundo. Um garoto que vê o pugilismo hoje tem o mesmo brilho nos olhos que um senhorzinho que lutou Boxe na sua juventude e ainda acompanha hoje em dia. O Boxe tem essa força motriz que mexe e toca as pessoas por diferentes motivos. As vezes a pessoa gosta de estar nos holofotes, outras vezes o esporte oferece uma condição financeira melhor. Tem também quem quer viajar mundo afora fazendo o que gosta, enfim”, explica.
Apesar das lutas profissionais ainda fazerem parte do “glamour” de um pugilista, Fernando Bolacha reforça que muitos atletas no Brasil acabam seguindo o caminho do Boxe olímpico, pois este oferece um respaldo maior a longo prazo. “Atletas olímpicos podem receber uma série de incentivos como bolsa atleta, auxílio internacional; prefeitura pode pagar uma bolsa para competir nos jogos regionais; existe também o apoio do exército e possibilidades de patrocínio. Enquanto isso, no Boxe profissional tem apenas a bolsa, você faz cerca de 4 lutas por ano. É outra pegada. O Boxe profissional é um mercado independente”, conta.

 

MENINAS DE OURO
O cenário atual também é bastante favorável ao crescimento do Boxe feminino. Se nas academias o Muay Thai ganhou muitas seguidoras nos últimos anos, para o Boxe não foi necessário o apelo “Fitness” para atrair o público feminino. Segundo Fernando Bolacha, a força do ídolo tem ajudado muito. “A Rose Volante (campeã mundial de Boxe profissionai) trouxe para mim a Isabella Gomes, que depois trouxe outras garotas. Fui no México ano passado e o pugilismo feminino lá é super famoso, inclusive tendo uma atleta se candidatando à presidência da República. Acredito que estamos em um ótimo momento”, explica Bolacha, que inclusive recebeu durante sua passagem pelo México uma homenagem da World Boxing Council em reconhecimento pelo trabalho social e de fomento da modalidade no Brasil.
Para Breno Macedo, cujo pai foi um dos primeiros treinadores e grande apoiador do Boxe feminino, historicamente a luta das mulheres para se inserir em diversas áreas reforça que o Boxe é um esporte para todos os perfis de fãs. “Vivemos um momento histórico das mulheres, que estão conquistando cada vez mais seu espaço, não apenas no esporte. É uma luta de décadas, mas é um movimento que não tem mais volta. Apesar de ser por muitos anos um esporte machista, homofóbico e xenofóbico, as pessoas estão lutando cada vez mais para quebrar essas barreiras”, comenta.

DERRUBANDO PRECONCEITOS
Sobre os estereótipos que o Boxe carrega, Breno afirma que o estigma de atividade violenta – ou que incita a violência – tem perdido a força, mesmo que o cotidiano esteja cada dia mais propenso à intolerância e muitas vezes à agressividade. “É um esporte que envolve contato físico, não tem como afastar totalmente o lado “violento”. Mas o que tem mais força do que isso, é a gente mostrar como esse contato controlado é importante para não gerar outras formas de violência. Na verdade, cabe a nós treinadores fazer as pessoas entenderem que essa prática é positiva, é saudável, tem valores, ou seja, é do bem, afastando da modalidade essa imagem de violência”, afirma.
Acostumado a lidar com muitas crianças e jovens em seu projeto social, Fernando Menoncello explica que além de educar os atletas, também é preciso dar respaldo para a família sobre os aspectos que permeiam esse tipo de atividade. “Com crianças menores de 10 anos você explica de uma forma mais lúdica; é aprender a tocar sem ser tocado. Eles gostam, pois parece um pega-pega, mas se você não explica para o pai o que vai acontecer, no primeiro momento que a criança aparecer com um machucado, ele pode tira-lá da aula e você perde talvez um jovem com potencial. Antes de subir no ringue ela vai aprender uma série de fundamentos. Algumas nem chegam a subir no ringue, pois não é o objetivo; as vezes você só procura o esporte pelo condicionamento físico. Por isso, é importante o envolvimento da família com a realidade”, diz Bolacha.

Participante atendido pelo projeto social de Breno que em mais de 15 anos de atividade atendeu milhares de crianças e adolescentes de Rio Claro.

EXPECTATIVAS PARA O FUTURO
Em meio a um cenário político conturbado, a dupla endossa a importância do Estado para manutenção e crescimento do esporte, tanto participativo, quanto de alto rendimento. “Precisa ter cultura esportiva. A gente só consegue mudar isso com um trabalho de formiguinha, fazendo com que as pessoas entendam, apoiem e valorizem o atleta e não só os esportistas, mas todos os profissionais envolvidos nisso. Eu me sinto respeitado como treinador, mas a gente sabe que não é só isso que faz mudar uma realidade. A gente tem bons incentivos atualmente, como bolsa-atleta, e isso tem que ser mantido pois mexe com a vida de muitas pessoas. Independente de quem chegar lá, a gente torce para que não se cortem os benefícios e incentivos”, conta Breno.
Para Fernando Bolacha, uma alternativa poderia ser o modelo norte-americano que alia esporte e educação. “Por que em outros países, modalidades que não são tradicionais tem sucesso? Porque você tem o incentivo escolar, o atleta consegue se formar e também viver do esporte. Além disso, se o governo não investir em seus professores e treinadores, que são aqueles que estão ali no dia a dia, não vai sair do futebol. Vai continuar tendo uma oscilação entre modalidades.”
Para quem vem de uma situação de risco, como a maioria dos alunos e atletas que frequentam e fazem parte dos projetos de Fernando e Breno, o incentivo é questão de sobrevivência, ou mesmo a única chance de permanecer no esporte.
“A gente tem alunos que foram campeões, tem talento, mas que quando tem a oportunidade de ir para fora ou para um evento maior, ganhar uma grana, os pais não querem, preferem que o jovem vá trabalhar em um emprego formal ou vá para um cursinho pré-vestibular. Então, é preciso mudar a mentalidade. O esporte pode ser sim um caminho para a criança e o jovem se desenvolverem”, lembra Bolacha.

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