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EU, NUTRICIONISTA

Rodolfo Peres trabalha há mais de 15 nos na área clínica, com foco em Nutrição Esportiva. Ao longo de sua carreira  ministrou mais de 300 palestras em todo o Brasil e no exterior.

Lançando seu sexto livro – Eu, Nutricionista -, Rodolfo Peres, um dos pioneiros da Nutrição Esportiva Especializada no Brasil, falou com a Combat Sport sobre os desafios e as recompensas da profissão que está cada dia mais valorizada. Com mais de 150 mil exemplares vendidos em edições anteriores, já tem em processo de escrita mais dois outros títulos a serem lançados nos próximos meses. Um é um guia prático de suplementação alimentar e o outro é para auxiliar pessoas que não tem acesso a um profissional (distância dos grandes centros ou condições financeiras limitadas), a praticar algumas medidas para também atingir seus objetivos.

TUDO COMEÇOU COM UM “BULLYING”

Quem vê Rodolfo Peres hoje não imagina que o nutricionista brigava com a balança na infância. Aliás, isso foi um dos motivos que levaram o garoto nascido em Nova Fátima, cidade com pouco mais de cinco mil habitantes no interior do Paraná, a se interessar por uma alimentação mais saudável. “Tive uma péssima alimentação na infância. Comia muita besteira, como bolachas recheadas e salgadinhos, o tempo todo. Aos 12 anos de idade, tive uma professora que acabou fazendo “bullying” envolvendo meu peso e as palavras dela mexeram muito comigo. Felizmente, isso acabou tendo um lado positivo; fez com que eu procurasse uma academia de ginástica”, conta.

Com a ajuda de Paulo Roberto Massaro, um treinador experiente e qualificado na cidade de Cornélio Procópio/ PR, Rodolfo comprovou que musculação associada à atividade aeróbica na adolescência, uma prática ainda considerada tabu nos dias de hoje, pode ser benéfica para a saúde. O garoto não apenas emagreceu, mas, com a rotina da academia, passou a se interessar por Fisiculturismo.
Buscando ganho de massa muscular, Rodolfo passou a pesquisar suplementos alimentares que pudessem ajudar na definição. “Nessa época, década de 1990, você encontrava suplementos em algumas farmácias e bem escondidos. A internet já existia, porém não havia tanta informação como hoje. Com uma mãe professora, tinha gosto pela leitura e ia me virando com os rótulos dos produtos e artigos das poucas revistas especializadas que existiam”, explica Rodolfo.

O DIVISOR DE ÁGUAS
Aos 15 anos, morando em Londrina – PR, uma palestra mudou a vida do jovem paranaense. O professor Waldemar Guimarães, treinador renomado de fisiculturistas e lutadores de alta performance, aproveitou a visita ao seu pai, que também morava em Londrina, para ministrar uma aula sobre treinamento e alimentação. “Só tinha – 9 profissionais, e eu, estudante do ginásio, fiquei lá no fundo da sala, quietinho no meu canto. Me encantei com a forma como ele apresentava aquele trabalho e pensei: Quero fazer isso! Mas não tinha a menor ideia de como começar”, relembra Rodolfo.
Em todas as palestras, mesmo não sendo nutricionista, Waldemar falava sobre Nutrição Esportiva, pois era um assunto com pouca informação no mercado e não havia profissionais especializados até aquele momento. Foi exatamente esse o gancho que Rodolfo precisava para investir na profissão.

 

NUTRIÇÃO: PROFISSÃO PARA MULHERES... #SQN

No Brasil, a formação de nutricionistas e dietistas teve início entre as décadas de 1930 e 1940, mas a profissão, com diploma de ensino superior, só passou a ser reconhecida a partir de 1962. Em 2006, uma pesquisa do Conselho Federal de Nutricionistas revelou que 96,5% dos profissionais da área eram mulheres. “A alimentação era uma das funções das enfermeiras e provavelmente por conta dessa aproximação entre os segmentos é que a nutrição passou anos fazendo parte do conjunto de profissões consideradas femininas. Fui o único homem na minha turma em 1999. Éramos 70 alunos e se formaram apenas 20”, explica Rodolfo.

Em Londrina, o curso estava disponível apenas em uma instituição privada. Sendo de uma família com recursos financeiros limitados, Rodolfo decidiu cursar Administração de Empresas na universidade pública para estagiar cedo e com isso custear os estudos no curso desejado.
“Até foi fácil conseguir um estágio, mas não me senti bem fazendo aquilo e logo desisti. Graças a Deus tive uma mãe que sempre acreditou em mim e com muito esforço e aulas extras proporcionou meu ingresso no curso de Nutrição. Durante um ano tentei conciliar as duas faculdades, sendo que Nutrição era em período integral. Mas fui perdendo o interesse pela Administração cada dia mais e quando os professores da Universidade entraram em greve, isso foi o estopim para que eu decidisse me dedicar exclusivamente à Nutrição”, conta Rodolfo.

Rodolfo e sua mãe, D. Antonia Hilda, cujo apoio foi fundamental para iniciar o curso de Nutrição, que na época, 1999, era uma carreira sem muito status ou atrativos econômicos.

NUTRICIONISTA OU ATLETA DO FISICULTURISMO?
No segundo ano do curso de Nutrição, Waldemar convidou Rodolfo para ajudar na formulação de dietas para atletas de alta performance. O paranaense mostrou que tinha um potencial enorme para despontar na área, mas por muito pouco seu talento não foi perdido. “Até meus 20 anos de idade eu queria ser fisiculturista. Mas no meio da faculdade o Waldemar viu que eu era um estudioso e disse: Rodolfo, por que você não deixa para lá essa ideia
de ser fisiculturista e me ajuda a cuidar dos atletas? No começo eu não queria muito não, ficava mal, mas depois entendi que foi um ótimo conselho”, afirma. Aliás, o interesse pelo Fisiculturismo fez com que o trabalho não virasse um peso e sim uma grande motivação, o que facilitou muito a busca por informações, produtos mais eficientes e novos protocolos. “O Fisiculturismo exige muito conhecimento. Acompanhar um atleta diariamente, onde a dieta implica diretamente na massa muscular, na definição dos músculos, é fantástico. Acredito que é o máximo do conhecimento de Nutrição que se pode aplicar”, destaca Rodolfo. O sucesso com atletas de alta performance fez com que praticantes de outras modalidades procurassem o
nutricionista para turbinar a alimentação e o desempenho. Atuando há mais de 15 anos na área clínica, Rodolfo tornou-se uma das principais referências em Nutrição Esportiva do país.

PALESTRANTE E CONSULTOR
Rodolfo e Waldemar formaram uma grande parceria por vários anos, que acarretou inclusive a publicação de dois livros: Guerra Metabólica – Manual de Sobrevivência. Phorte Editora, 2005; e Are You Ready?. Phorte Editora, 2007. Além do trabalho com atletas e escritor – é também colunista de diversos portais e revistas -, Rodolfo também teve a oportunidade de palestrar Brasil afora e, posteriormente, no exterior. Mas se antes os presentes eram atletas e treinadores, hoje diversos estudantes e outros profissionais procuram a experiência de Rodolfo visando entrar num mercado cada dia mais aquecido. “Há alguns anos 70% dos participantes eram estudantes, alguns nutricionistas e demais atletas. Hoje tem mais nutricionistas do que treinadores. Mas um diferencial que procuro – e gosto de fazer – é levar um treinador comigo para que as pessoas entendam como é possível encaixar o treinamento com alimentação adequada”, relata Rodolfo. Hoje voando solo, Rodolfo está acostumado com auditórios lotados, com mais de 500 pessoas o assistindo. Mas um traço que segue em seu comportamento é o de sempre prezar pela qualidade na troca de informações e experiências. “Já houve anos em que fiz de 4 a 6 palestras por mês, mas o deslocamento em um país continental tornava o desgaste enorme. Chega uma hora que você não aguenta mais viajar. Hoje, faço duas palestras por mês. Além disso tem que se preocupar sim em adequar o tema ao público que estará presente. Não
adianta falar que mandioca é bom, se estou palestrando nos Estados Unidos e lá esse tipo de alimento é difícil de encontrar. Palestrar é um dos meus maiores prazeres. Apesar da internet facilitar, gosto de ter o contato com as pessoas”, reforça, sempre mencionando a importância de Waldemar Guimarães em sua vitoriosa carreira. Atualmente com residência na cidade de São Paulo (SP), Rodolfo pode dar um passo além na sua carreira.
Atuando desde 2013 na Atlhetica Nutrition como consultor, não apenas ministra treinamentos, mas contribui na elaboração de produtos.

O LADO GESTOR
A multifuncionalidade de Rodolfo Peres não para por aí. O nutricionista ainda cuida da administração do consultório, localizado em um belo prédio corporativo na zona sul da capital paulista. A tarefa pode parecer simples, mas exige muita atenção para que a agenda lotada não se torne um verdadeiro estresse. “Você passa anos tentando preencher a agenda e depois que ela fica cheia, é necessária muita organização para que o sonho não vire pesadelo. Falo bastante disso no meu novo livro. Com base em toda essa vivência, procurei transmitir algumas estratégias para auxiliar nutricionistas a atingir seus sonhos profissionais”, afirma. Atendendo das 8hs às 20hs, 5 dias por semana, em seu consultório, Rodolfo tem pacientes agendados para alguns meses de espera. O público, porém, não é apenas de esportistas. “Atendo atletas, mas posso dizer que grande parte são de pessoas que praticam atividades físicas e querem uma alimentação mais saudável”, conta Rodolfo.

Rodolfo e Waldemar Guimarães, sua referência profissional, no lançamento do livro “Are You Ready?”, que escreveram em coautoria em 2007.

NUTRIÇÃO CONSCIENTE
A procura por saúde e qualidade de vida tem colocado profissionais, como nutricionistas, entre os mais procurados pela população. Mas vivemos uma realidade de contrastes. O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo, tem um mercado de hortaliças altamente diversificado, mas uma pesquisa do Datafolha mostra que apenas 40% da população consome esses alimentos diariamente. “As pessoas ainda optam muito por sabor. Se tiver
um produto gostoso e cheio de substâncias potencialmente cancerígenas e outro 100% natural, mas não tão gostoso, elas ainda preferem o produto mais saboroso. Estamos em uma época em que existe uma grande preocupação com alimentos orgânicos, isenção de corantes e aromatizantes artificiais, mas tirar esse tipo de substância artificial e preservar o sabor é realmente muito difícil. Pode não parecer, mas quem já acompanhou o processo de produção sabe o quanto é”, explica Rodolfo. Para o nutricionista, o grande desafio é fazer com que as pessoas escolham melhor os alimentos que
consomem e que a indústria ofereça rotulagem e propagandas adequadas que supram a necessidade de informação da população sobre os produtos que estão
sendo consumidos. “É uma questão de direcionamento. Quando falamos de produtos que podem melhorar a saúde das pessoas, não tem porque mentir. Por isso, não admito, por exemplo, a venda de um suplemento que não tem benefício funcional, sendo que a pessoa pode pegar o mesmo dinheiro e investir em outro produto que vai trazer o beneficio que ela procura. A indústria não perde, o vendedor não perde, o lojista não perde, quem perde é o consumidor usando um produto não adequado as suas necessidades”, reforça.

SUPLEMENTAÇÃO PARA TODOS
O Brasil já tem 30 milhões de idosos e o Ministério da Saúde estima que a partir de 2030 o país terá a quinta maior população idosa do mundo. Rodolfo ressalta que a suplementação é um aliado importante para melhorar a “Tenho focado nisso há algum tempo. A vitamina D é excelente para a saúde óssea. A mastigação nessa fase é difícil e com adição de Whey Protein, por exemplo, pode se tornar mais fácil. A Glutamina e a Creatina também são ótimos produtos para esse público e pouco se fala deles”, exemplifica Rodolfo, que também defende mudanças na forma como a indústria de suplementação esportiva vende esse tipo de produto. “Existe uma falha em direcionar o marketing e as vendas apenas para esportistas. Os idosos podem se beneficiar até mais do que um atleta, ingerindo suplementos. A indústria, inclusive, poderia trabalhar com esse público que já conhece a suplementação alimentar para que ele leve o mesmo produto que consome para a família toda”, explica Peres.

VEGETARIANISMO
O comércio de produtos alimentícios no Brasil tem se rendido cada vez mais a demanda crescente por produtos vegetarianos. Pesquisas apontam que já existem mais de 5 milhões de vegetarianos no país. Apesar de ser uma prática completamente saudável, Rodolfo alerta sobre a importância de um processo de transição para garantir a manutenção da saúde. “Vegetarianismo é um estilo de vida, mas algumas pessoas enxergam como uma forma de regime e por isso é preciso muita cautela. Se o indivíduo tem uma alimentação onívora desde a infância e de repente corta toda a carne, mesmo fazendo boas combinações vegetais, a performance despenca! Existe queda na massa muscular, envelhecimento da pele, enfim, uma série de malefícios que não tem nada a ver com o vegetarianismo em si. Por isso eu recomendo, caso seja desejo do paciente se tornar vegetariano, um processo de transição gradativa. Esse ano tira a carne bovina, ano que vem tira o frango, na sequência verifica se está bom assim ou, se for o caso, tira peixe e ovos. Tudo feito de uma maneira consciente”, afirma o nutricionista. Rodolfo lembra que é possível ter uma alimentação saudável sem cortes. “Podemos ser saudáveis comendo carnes ou sendo vegetarianos. A questão é ingerir todos os tipos de nutrientes de acordo com as características individuais, seja o alimento de origem animal, seja de origem vegetal. Sou a favor da Nutrição Individualizada acima de qualquer circunstância.”

Ricardo Armando, CEO da Atlhetica Nutrition e Rodolfo Peres; uma sintonia que resultou em produtos inovadores, com matéria-prima de qualidade e sem o uso de um marketing agressivo…
Olzirio Junior, consagrado fisiculturista, treina com seu orientador nutricional, Dr. Rodolfo Peres. O sucesso com atletas de alta performance fez com que praticantes de outras modalidades procurassem o nutricionista para turbinar a alimentação e o desempenho…

IMEDIATISMO E ESTÉTICA
O imediatismo é realmente uma característica do brasileiro, especialmente se falando em emagrecimento. Por isso, o nutricionista ressalta que não existe receita mágica. O maior problema é generalizar as dietas e fazer restrições, sem o acompanhamento adequado de um profissional. “Tirando as questões fisiológicas, quando alguma intolerância específica é constatada, existe um sofrimento desnecessário para fazer dieta. Vai chegar uma hora que a pessoa vai se entregar, vai voltar a comer tudo novamente, e não fazer uma reeducação alimentar. O mais difícil de explicar é que cada ndivíduo deveria ouvir o seu corpo e verificar quais tipos de alimentos que ele se adapta melhor. Muitas vezes um paciente se adapta com a ingestão de arroz, outro se sente melhor com batata doce, outro se dá melhor apenas com o feijão, ou só com lentilha. Falta essa percepção”, conta Rodolfo.
Ainda segundo o nutricionista, essa prática inconsciente de corte de determinados produtos ou alimentos está associada inclusive ao Fisiculturismo, mas adaptada de maneira errônea. “Os atletas de Fisiculturismo quando estão muito próximos da competição precisam ter uma alimentação limpíssima e qualquer detalhe para ele faz o paciente apresente alguma anormalidade hormonal que seja possível se adequar somente com medicação, é necessário a presença do médico especialista na equipe multiprofissional. Como por exemplo, um médico endocrinologista para adequação de uma tireoide desregulada ou um ginecologista para definir qual o melhor método anticoncepcional para a mulher. Então, é preciso de uma avaliação completa que respeite individualidade de cada um”, afirma Rodolfo.

ALIMENTAÇÃO NO FUTURO
Hábitos saudáveis começam ainda na infância. Por isso, para os pais que o procuram de olho no sobrepeso dos filhos, ou mesmo aqueles preocupados com a grande quantidade de “junk food” consumida pelos pequenos no cotidiano, o nutricionista alerta: “Criança aprende por repetição, logo os pais devem
ser os primeiros a dar o exemplo. Não adianta pedir para a criança comer legumes se você chega em casa e só come pizza. Os pais terem uma alimentação adequada e mostrarem para os filhos a importância disso é fundamental. Lembro, inclusive, que hoje é comum o paciente me dizer que o grande benefício do trabalho de nutrição com a mudança de hábitos alimentares não foi individual, foi para a família”, reforça. Conhecimento, dedicação, paixão e alegria são alguns atributos que fazem de Rodolfo Peres um profissional bem-sucedido. Uma história que inspira não apenas a nova geração de nutricionistas, mas diversos tipos de público que ainda sonham com a felicidade na vida profissional e pessoal.

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